Em um mundo dominado por homens, seis mulheres aceitaram o desafio de fazer o “trabalho braçal” de operar um sistema de computador dos anos 40. Contratadas para trabalhar no ENIAC, uma máquina militar dos EUA, Kathleen McNulty Mauchly Antonelli, Jean Jennings Bartik, Frances Snyder Holberton, Marlyn Wescoff Meltzer, Frances Bilas Spence e Ruth Lichterman Teitelbaum foram pioneiras em várias frentes. Conheça a história dessas moças que abriram várias portas para que as mulheres se aproximassem da tecnologia.

Entenda o ENIAC

O ENIAC (Electrical Numerical Integrator and Computer) criado pelos cientistas norte-americados John Eckert e John Mauchly, da Electronic Control Company, em fevereiro de 1946, foi o primeiro computador digital completamente eletrônico da história a ser reconhecido – o Mark 1, da Universidade de Harvard (e programado pela Almirante Hopper) é dois anos mais velho, mas é eletromecânico. O funcionamento da máquina- que, aliás, era enorme: ocupava várias salas inteiras- era parecido com uma calculadora simples dos dias de hoje e exatamente por isso precisava ser operada manualmente para funcionar de modo correto.

O ENIAC era um projeto que inicialmente tinha o conceito de computar trajetórias balísticas para a II Guerra Mundial. Foi construído e criado por homens, mas o complexo sistema de programação foi criado por seis incríveis mulheres que precisaram esperar 40 anos para ganhar o devido reconhecimento do trabalho.

O brinquedinho dos dois cientistas americanos pesava mais de 30 toneladas, ocupava 167 m² e tinha capacidade de processamento de 5.000 operações por segundo, consumindo 200.000 watts de potência e sendo operado na base dez e não em base binária. Logo, o ENIAC não possuia sistema operacional. As pressionadas faziam contato com o hardware que, por sua vez, necessitava de conexão com fios, relês e sequências de chaves para que se determinasse a tarefa a ser executada. Para se ter uma ideia do trabalho que era manusear a máquina, todo e qualquer processo deveria ser refeito para que outra tarefa fosse realizada, de modo completamente manual. A resposta era dada por uma sequência de lâmpadas. Porém, não é nada errado afirmar que essa máquina de programação arcaica influenciou diretamente no design dos futuros computadores. Além disso, para a época, o ENIAC poderia ter sido um salva-vidas para muitos soldados. O trabalho de calcular a tabela de artilharia era feito em minutos com o computador. Muito diferente do trabalho com as calculadoras mecânicas que levavam horas para ser concluído.

Os primeiros computadores digitais programáveis e construídos em série foram o Colossus Mark I, seguido pelo Colossus Mark 2 usados pelos ingleses na II Guerra Mundial também, para decodificar mensagens secretas dos alemães. Mas, isolado na história, por ser um projeto secreto, se tornou público apenas na década de 70. Assim sendo, o ENIAC tomou os holofótes para si durante muitos anos. Este também deve créditos as suas inflências histórias para a conclusão de sua estrutura. É certo que o ENIAC baseou-se na máquina analítca de Charles Babbage, nas calculadoras mecânicas de Blaise Pascal, Leibniz e Charles Xavier Thomas, nas relés electromagnéticas, nas válvulas e nas máquinas perfuradoras de cartão.

O diferencial do ENIAC, na época, era que a máquina tinha capacidade de ser reconfigurada para resolver outros problemas e, de acordo com os historiadores, não havia um problema que o ENIAC não conseguia resolver- lembrando que a tecnologia da época exigia pouco e era muito limitada. Dessa maneira, apesar de não ter ajudadado o governo americano durante a guerra- pois ficou pronto três meses depois da rendição dos japoneses- posteriormente a esse período turbulento foi altamente usado em indústrias comerciais, universidades e também por pesquisadores.

John von Neumann se juntou aos criadores do projeto ENIAC alguns anos depois de sua conclusão e mudou o conceito de funcionamento da máquina, moldando as direções de futuros computadores com o desenvolvimento da memória de dados. Além disso, criou a unidade de processamento, a unidade de controle e os dispostivos de entrada e saída. Entretanto, depois de 10 anos o ENIAC tornou-se economicamente inviável de manter em operação, tendo sido desmontado. Atualmente é possível encontrar partes da máquina espalhadas por muitos museus ao redor do mundo.

O ENIAC, por ocupar várias salas usufruia de muito espaço e material para funcionar corretamente.

- 17.468 tubos de vácuo

- 70 000 resistências

- 10000 condensadores

- 1.501 relés e 3000 interruptores

- Tinha 8 metros de altura

- Consumia 200.000 watts de potência

- Era capaz de realizar 500 adições, 357 multiplicações e 38 divisões por segundo

- Tinha cerca de 80 metros de comprimento

- 17.000 resistores

- 6000 seletores e frágeis 18000 válvulas. Essas queimavam da mesma forma como as lâmpadas atuais. Numa máquina que continham 18.000 dessas, pelo menos uma tinha que ser substituída em um pequeno intervalo de tempo- não chegava a ser horas, apenas alguns minutos. E claro, esse trabalho era completamente manual.

- A máquina era tão grande que tinha de ser disposta em formato de U com 3 painéis sobre rodas, para que as operadoras pudessem se movimentar em volta dela.

- Quando em operação produzia tanto calor que necessitava de um sistema de ar forçado para arrefecimento.

- O projeto ENIAC, que usufruiu de meio milhão de dólares para ser construído, foi patenteado em junho de 1947 e foi apresentado ao mundo em 1946 em uma cerimônia pública.

“Requer esforço físico, criatividade mental, espírito inovador, e um alto grau de paciência”, essa era a descrição do primeiro trabalho para programadores da história que chegou nas mãos de 80 mulheres que, a “pedidos” do Exército dos Estados Unidos foram trabalhar na universidade da Pensilvânia com o projeto inovador, o ENIAC. Em 1945, quando o governo decidiu fazer um experimento com a máquina gigantesca chamou 6 “computadoras” para realizarem o trabalho. Essas eram Kathleen McNulty Mauchly Antonelli, Jean Jennings Bartik, Frances Snyder Holberton, Marlyn Wescoff Meltzer, Frances Bilas Spence and Ruth Lichterman Teitelbaum.

Foi graças a essas mulheres que o ENIAC tinha a perfeita habilidade de calcular em tão pouco tempo, com tanta precisão para atingir o seu objetivo nos cálculos exigidos. A velocidade chegava a ser mais rápida do que uma bala. E veja bem: o projeto ainda estava sob construção e todas elas não dispunham de ferramentas e tecnologias que temos em mãos hoje. Dessa forma, as “computadoras” não tiveram outra alternativa a não ser aprenderem sozinhas como operar a gigantesca máquina de Eckert e Mauchly a partir de seus diagramas de blocos lógicos e elétricos, também descobrindo como programá-la. Elas criaram seus próprios fluxogramas, folhas de programação, escreveram programas e os inseriram no ENIAC usando uma interface física desafiadora, que teve centenas de fios e interruptores.

Sem nenhum reconhecimento, elas ainda sofriam a injúria de receber a inscrição SP (subprofessional) em seus crachás e serem chamadas de “computadoras” (termo pejorativo escolhido pelo exército americano para separar as mulheres dos verdadeiros matemáticos). Mas foi em 1946 que os créditos das seis mulheres, e das outras 80, claro, ficaram oficialmente largados ao vento e esquecidos por anos a fio. Na cerimônia de apresentação ao público, o projeto ENIAC capturou a imaginação da imprensa que fez manchetes em todo o país. A máquina lendária e seus engenheiros (todos homens) por trás dela tornaram-se inegavelmente famosos, sem sequer chegarem a mencionar a existência das mulheres “congeladas” nas fotos junto com o gigantesco ENIAC.

Kathy Kleiman, uma programadora dos anos 80 foi a responsável por descobrir as programadoras do projeito ENIAC. As seis mulheres foram a pauta central de um estudo pessoal que levou 20 anos para ficar pronto, contendo pesquisas e entrevistas com aquelas extraordinárias matemáticas que ajudaram o exército dos Estados Unidos e a história da computação. O projeto tornou-se um documentário que fez as seis mulheres do ENIAC terem o trabalho, finalmente, reconhecido. “De repente, todos estavam interessados em nós”, diz Jean Bartik em entrevista. 

Depois da Guerra, Ruth ensinou a geração seguinte de programadores do ENIAC a como mexer em seu complexo sistema, em Aberdeen no estado de Maryland. Frances Spence e Kathleen também continuaram na equipe do projeto depois da Guerra trabalhando para alguns dos matemáticos mais importantes do mundo. Kay se casou com o Dr. John Mauchly (sim, um dos criados do projeto ENIAC!).Já Jean Bartik trabalhou na equipe que converteu o ENIAC em uma máquina de programa de armazenamento, tornando-o mais rápido e fácil para programar problemas maiores e mais sofisticados. Não satisfeita, trabalhou com o projeto UNIVAC anos mais tarde para projetar um design lógico de um sistema de backup e trabalhou também com microcomputadores. Betty Holberton se uniu a equipe dos criadores do ENIAC para trabalhar num dos primeiros computadores comerciais da história e serviu no comitê de designers da “linguagem COBOL”: trabalhando incansavelmente na área de computação por anos. Marlyn Meltzer, por sua vez, renunciou a equipe do projeto ENIAC em 1947 para se casar, e somente em 1997 foi introduzida na Women in Technology International Hall of Fame junto com as outras “computadoras”.

As seis programadoras responsáveis por incríveis evoluções na computação são exemplos de mulheres que, mesmo sob preconceito e ausência de reconhecimento durantes anos, trabalharam a vida toda com aquilo que gostavam para transformar o computador cada vez mais fácil de usar e entender.

Fonte: Escrito por Sara Ferrari Disponível em: <http://henrique.geek.com.br/posts/19110-programadoras-do-eniac-as-seis-mulheres-que-operaram-o-1-computador-digital-da-historia.> Acesso em 24 de julho de 2014.